Críticas contemporâneas

Patrimônios históricos abandonados pelo descaso

Não se faz mais teatro como antigamente, foi-se o tempo, em que as famílias saíam com seus melhores trajes para assistirem as belíssimas peças teatrais e conversarem sobre elas, tempo em que os artistas recebiam os textos, por alguém do elenco que os recitava atrás das cortinas, e que se falava de arte pela arte e não da arte pelo dinheiro. Um tempo que foi esquecido, abandonado literalmente. É o que acontece com duas das mais célebres casas de espetáculo que já existiram na cidade do Recife. O teatro do Parque e o teatro do Derby, sofrem com a devastação causadas pelo tempo  e estão entregues ao desleixo e falta de interesse das autoridades.

Teatro do Derby completamente devastado.

Nas décadas de 50,60 e 70, a Cidade do Recife abrigou dezenas  de casas de espetáculos. Foram teatros que despertaram, revolucionaram e evoluíram a sua época, com técnicas contemporâneas trazidas de fora do país, muitas vindas da França, que foram utilizadas na arquitetônica das casas. “Nessas épocas, tudo era muito difícil, porém muito diferente dos tempos hoje,  o próprio ator tinha que se virar para conseguir o figurino, às vezes pedíamos emprestado, nós investíamos para que o teatro funcionasse, as pessoas adoravam ir para jantar e discutirem sobre o que viam, hoje, isso diminuiu muito, mas mesmo com as dificuldades, o teatro era mais valorizado”. Relata Paulo de Castro,  presidente da Associação dos produtores de artes cênicas de Pernambuco, sobre as respectivas mudanças no cenário cultural.  E também foram as melhores e piores épocas  para os artistas que estavam apenas começando, como quando, eles tiveram que lutar para a construção e conservação desses teatros, por meio dos órgãos públicos.

25 de agosto de 1915, sai a divulgação da inauguração do teatro do Parque, no Jornal do Recife.
 

Enfim, foram anos vindouros para essas casas,  mas a preocupação é a de que boa parte desses teatros ou sumiram, ou estão abandonados, como acontece com o teatro do Parque, localizado na Rua do hospício. O teatro ainda mantém a sua singular fachada, que lembra um parque de diversões, e foi criado exatamente para ser um. Ele é o único da nossa cidade a ter um jardinzinho nos fundos, foi  construído em 1915 por Bento de Aguiar, e desde abril de  1959, ele foi considerado patrimônio do Recife. Ele já passou por diversas modificações e construções internas, funcionou também como cinema, e hoje ele se encontra completamente devastado e abandonado. “ A atividade do teatro do Parque na época era fantástica , as pessoas iam à vontade, e a casa era totalmente lotada nos dias de espetáculo, já que ela era um dos maiores teatros daqui do Recife. O  teatro do Parque só começou a cair depois dos anos 80, quando a casa ficou abandonada e sem restauração.” Diz Leidson Ferraz, jornalista e ator, sobre as memórias do que foi  uma das maiores casas de espetáculo da sua época.O mesmo ocorre com o teatro do Derby, localizado ao lado do quartel da Polícia Militar, foi fundado em 1935 pelo Comandante geral do quartel, Jurandir de Bizarria Mamede. O teatro foi importantíssimo para a época, onde  recebeu grandes eventos históricos , pintado de tinta a óleo, com brocha, um afresco, segundo alguns, de autoria do célebre artista Di Cavalcanti, a casa, hoje em dia, implora melhorias e restaurações.

Depois dos anos 80, os teatros passaram por períodos bem difíceis, sem investimentos e com o desastre do Valdemar de Oliveira, o teatro do Parque, principalmente, foram um dos que mais foi afetado. “Com o incêndio que destruiu boa parte do teatro, ele demorou muito pra se reerguer, e na falta de teatros melhores para as apresentações não pararem, o teatro do Parque não foi o escolhido,  porque na época ele estava lastimável e sem nenhuma manutenção, e também, por ser um dos maiores teatros, não havia muito dinheiro por parte dos produtores e nem interesse do público, já que se pagava por cadeira o aluguel do espaço, então o teatro que sobreviveu, nessa época foi o teatro do Derby, que entrou com grande efervescência, mas já no final da mesma década, ele foi entregue às traças novamente.” Comenta Leydson Ferraz, baseado nas histórias do livro cine-teatro do Parque- Um espetáculo à parte de Lêda Dias.

A belíssima fachada do Teatro do Parque na sua contemporaneidade.

Então, os teatros da Cidade do Recife tiveram muita dificuldade para reabrirem denovo, tanto por falta do interesse dos órgãos públicos, como também pelas dificuldades encontradas pelos artistas, que navegam entre a pouca divulgação de espetáculos pela mídia e a deficiente plateia que curte e frequenta o teatro. “ Manter um teatro é muito difícil hoje em dia, além das milhares opções de diversão, que encontramos, as pessoas estão mais acomodadas, quase não sai de casa, é perigoso, existe violência, coisa que naquele tempo quase não se via, as pessoas tinham fome de cultura, gostavam de ler e de ver a obra em si, e não só a celebridade, o ator. O teatro perdeu muito público também por conta disso.”Diz Paulo de Castro.  Já Leydson Ferraz , opina sobre a grande falha do papel das autoridades na reconstrução e serviços desses patrimônios culturais. “ Tudo bem que um teatro leva a grandes gastos e custos, mais é papel do governo de querer investir para que tudo aconteça, nós artistas, as pessoas nas redes sociais e até a própria mídia reivindica, mas só há promessas , e o que podemos fazer? O teatro do parque mesmo é patrimônio da prefeitura, deveria estar impecável, porque a fluência de público lá é enorme, mais continua abandonado. Tem de haver interesse para que haja mudança.”

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